quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

X - JESUS NÃO MORREU NA CRUZ E NÃO RESSUSCITOU - O PAULINISMO



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Ao homem primitivo assustavam-no os fenómenos naturais, o aparecimento em sonhos dos antepassados falecidos, as inquietações para que não tinha qualquer resposta, em especial para a morte.
O medo levou-o a criar deuses, que justificou com revelações imemoriais. Com eles o pensamento instituiu as crenças na reincarnação e na ressurreição, qual delas a mais ilógica e desesperada.
No entanto, é possível e plausível, que a primeira ideia dos povos ancestrais quanto à existência de um ser superior tenha recaído numa entidade do “mal”, um “diabo”, agressivo e punitivo, de poder temível. Poder este, que depois viria a ser atribuído a deus, de modo qualitativa e quantitativamente superior, de forma a que este pudesse derrotar aquele e pela súplica as nossas aflições e padecimentos.

O homem sofre, angustia-se, tem medo, sentimentos de culpa e simultaneamente quer ser o centro do universo. Por isso criou deuses, a maioria pessoais. Falsos e limitados como o pensamento e como convém a mentes estreitas, condicionadas e envelhecidas, mentes que pedem, imploram, oferecem bens e sacrifícios em troca de favores. Já Platão se referia pejorativamente a todos os que consideravam de forma aberrante, que Deus pudesse ser propiciado com dádivas e ofertas; a divindade estaria assim, a par dos cães que ludibriados e amansados com alimentos de boa qualidade, deixavam depredar os rebanhos e abaixo dos homens comuns, que seriam incapazes de atraiçoar a justiça, por via de presentes oferecidos com intenção delituosa – no tempo de Platão, ao que parece, os homens comuns eram a regra da dignidade e verticalidade...


As religiões nascem ou de antigas tradições, que vão sendo aperfeiçoadas no seu conteúdo teológico ou até de um simples acaso, como ocorreu com o cristianismo.
Quando Jesus nasceu, a denominada Terra Santa estava sob o domínio romano. O Império, numa atitude de inteligente condescendência, permitia que as populações dos territórios ocupados mantivessem alguma autonomia, quer a nível religioso quer político, amenizando assim o espírito de revolta inerente a todas as situações que envolvem a perda de soberania e consequente descaracterização de valores e costumes próprios dos subjugados. Herodes, o Grande, governava a Palestina, com a anuência e vigilância do Imperador romano. Quando morreu, o reino foi dividido pelos seus três filhos, Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. O primeiro governou a Edumeia, a Judeia e a Samaria. O segundo, a Galileia e a Pereia. O último, a Transjordânia. Arquelau incompatibilizou-se com o Império, ao que os seus territórios passaram a ser governados por um procurador romano. Por isso encontramos Pôncio Pilatos em Jerusalém aquando da morte de Jesus. Até aos dias de hoje, foi de todo impossível estabelecer a sua data de nascimento; possivelmente nasceu entre três e sete anos antes da nossa era.

Segundo Mateus, Maria concebeu e deu à luz Jesus, sem que José a tivesse “conhecido” (Mt 1,25). O seu nascimento teria ocorrido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes (Mt 2,1), que ao que parece terá falecido no ano quarto a.C. Avisados de que este pretendia matar o menino, fugiram para o Egipto, onde permaneceram durante algum tempo (Mt 2,13-15). Morto Herodes, o Grande, terão retornado à terra de Israel, porém, José teve conhecimento, que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai, e tendo medo retirou-se para a região da Galileia, indo morar numa cidade chamada Nazaré (Mt 2,19-23).
A partir daqui, Lucas refere que o Menino crescia e robustecia-Se, enchendo-Se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele, narrando o episódio do templo, quando tinha doze anos e estarrecera os doutores com as suas perguntas e respostas (Lc 2,40-51). Daqui, até ao início do seu ministério apenas se conhecem as palavras de Lucas. “E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52).

Qual foi a educação de Jesus até aos doze anos? Na Índia, com os Essénios em Qumran, com algum mestre desconhecido ou com os seus pais denotando uma sabedoria inata e precoce? E onde é que esteve entre os doze e os trinta anos? Na Índia ou entre os Essénios? Desenvolvendo individualmente as suas capacidades? São múltiplas as hipóteses com milhares de obras e milhões de páginas gastas com um problema insolúvel. A verdade, é que o Jesus histórico, a sua personalidade e ensinamentos, ter-se-ão perdido no vazio dos tempos. Em bom rigor, os primeiros textos sobre a sua vida só terão sido escritos – excepcionando-se as cartas de Paulo, a que nos iremos referir em momento posterior – dezenas de anos após a sua crucificação – entre os anos 70 e 100 –, e é de todo injustificável a construção de doutrinas, algumas absolutamente aberrantes, desprovidas da menor consistência histórica e lógica, que apenas têm como intuito a venda de “livros da moda”. Nunca se escreveu tanto na história da humanidade sobre alguém de que se sabe tão pouco.

Para o conhecimento da vida de Jesus, contamos essencialmente com os quatro Evangelhos canónicos do Novo Testamento – atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João –, muito especialmente no período que vai do início do seu ministério até à eventual ressurreição, e dos apócrifos – que foram rejeitados pela Igreja e como tal não são considerados livros sagrados –, sem olvidar os “Actos dos Apóstolos”, atribuídos a Lucas. Os três primeiros Evangelhos dizem-se sinópticos, pelo paralelismo ou visão de conjunto que se torna possível estabelecer entre eles.  

O ministério de Jesus tem como antecâmara a pregação de João Baptista no deserto da Judeia, dizendo “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3, 1-3). Então, Jesus que deveria ter cerca de trinta anos, veio ter com ele para ser baptizado (Mt 3, 13). Após a prisão de João, Jesus retirou-se para a Galileia, tendo ido habitar em Cafarnaúm, começando a pregar a partir deste momento (Mt 4, 12-17).
Depois de iniciar o seu ministério, começou Jesus a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, curando o povo de todas as doenças. “A Sua fama estendeu-se por toda a Síria e trouxeram-Lhe todos os que sofriam de qualquer mal, os que padeciam de males e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos; e Ele a todos curou.
Seguiram-nO grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão” (Mt 4, 23-25).
Os Evangelhos referem constantemente o facto de Jesus ser seguido por grandes multidões e a realização de inúmeros e fantásticos milagres nos lugares por onde andou, à excepção de Nazaré, por causa da falta de fé da sua gente – “Um profeta só é desprezado na sua pátria e em sua casa”. Este facto faz com que estranhemos sobremaneira a atitude dos investigadores da época de Jesus. A anuência das multidões à sua palavra e a realização de curas verdadeiramente milagrosas, não poderiam passar desapercebidas a inúmeros historiadores, tais como, Suetónio (65-135) e Plínio, o Jovem (61-114) – que se referem à seita dos cristãos, mas nada escrevem sobre Jesus –, a Flávio Josefo, autor de uma obra denominada “Antiguidades Judaicas”, publicada por volta do ano 90 – onde refere Herodes, João Baptista e Pôncio Pilatos, mas também nada escreve sobre Jesus. Dois contemporâneos de Jesus, também não escrevem nada sobre a sua vida e obra: Fílon de Alexandria, e o mais estranho, Justo, que viveu em Tiberíades, nas proximidades de Cafarnaúm – onde Jesus terá arrastado multidões e realizado inúmeros milagres, como Mateus mencionou e já referimos supra. Apenas Tácito (55-120), refere um homem de nome Cristo, crucificado no tempo do imperador Tibério, pelo governador Pôncio Pilatos.

Se os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, se aproximam da verdade histórica, então Jesus tinha medo da morte: “ (...) Jesus chegou com eles a um lugar chamado Getsemani e disse aos discípulos: «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar». E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes então: «A Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai Comigo». E, adiantando-Se um pouco mais, caíu com a face por terra, orando e dizendo: «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice; todavia, não seja como Eu quero, mas, como Tu queres» (Mt 26,36-39) – veja-se Marcos 14,32-37 e Lucas 22,39-45. Tudo nos leva a crer que Jesus não pretendia morrer, que esse não era o seu desígnio e vontade.

Jesus foi condenado à morte por crucificação. Esta forma de pena era brutal, pela duração da agonia e pela dor que causava, não estando destinada aos cidadãos romanos, mas tão-somente aos “criminosos” dos povos dominados. Com ela, pretendia o império aterrorizar os rebeldes e todos os que atentavam gravemente contra si e contra a ordem pública. O peso do corpo da vítima, quando suportado apenas pelos pulsos, levava à sua lenta sufocação, sobrevindo a morte em cerca de seis horas. Para minimizar o sofrimento dos condenados, por vezes, partiam-se-lhes as pernas, o que tornava a asfixia mais rápida. Tal procedimento, terá ocorrido no tocante aos dois homens que foram crucificados com Jesus, já após este ter rendido o espírito, de forma a que os corpos não ficassem na cruz, pois estava-se no dia da Preparação – dia que antecedia o sábado, que excluía qualquer tipo de execução e começava com o pôr-do-sol de sexta-feira, correspondendo neste particular ao início das festas pascais judaicas – (Jo 19,31-33). Jesus nessa altura, já havia sido considerado morto, tendo-se limitado um soldado a perfurar-lhe o lado com uma lança (Jo 19,34).
Terá sido pregado na cruz na hora sexta ou meio-dia, e considerado morto na nona hora ou três da tarde. Ao anoitecer – talvez pelas seis horas da tarde – o corpo foi retirado da cruz – iniciava-se o sábado e tudo leva a crer que a crucificação de Jesus e dos dois malfeitores foi feita à pressa (Mt 26,5).

Ora, os Evangelhos sinópticos referem que Jesus antes de entregar o espírito ao Pai, terá dado um grande grito, o que teoricamente é de todo impossível para quem está a falecer por asfixia. A ausência ou insuficiência de oxigénio ocasiona uma debilidade que torna impossível qualquer brado ou manifestação vocal vigorosa. “Desde a hora sexta, até à hora nona, as trevas envolveram toda a terra. E, cerca da hora nona, Jesus clamou em alta voz: «Elli, Elli, lema sabacthani?» isto é: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?». Alguns dos que ali se encontravam, disseram ao ouvi-Lo: «Está a chamar por Elias». Um deles correu imediatamente, tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa cana, dava-lhe de beber. Mas os outros disseram: «Deixa, vejamos se Elias vem salvá-Lo!». E, clamando outra vez em alta voz, expirou.” (Mt 27,45-50) – veja-se também, Mc 15,37, que refere um grande brado e Lc 23,46, onde se diz que Jesus exclamou, dando um grande grito: «Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito», expirando de seguida.

Não vamos tão longe como Nicolai Notovitch, que publicou em 1887 “A desconhecida vida de Jesus” ou mais recentemente – mas na esteira daquele – o teólogo Holger Kersten, que afirma ter Jesus, após a “ressurreição” vivido e sido sepultado na Índia. Este último aventa a hipótese de ter sido dado a Cristo, não vinagre, mas uma substância extraída de uma planta, como a Erva-andorinha, que provoca em doses ponderais mas não letais, um estado cataléptico semelhante ao da morte, em que todos os sinais vitais, como a respiração e a pulsação se tornam imperceptíveis. Isto explicaria a rendição do espírito, logo após a administração da “substância”, identificada como vinagre – o vinagre tem um efeito estimulante, que facilitava a agonia dos condenados, mas que não acelerava o processo executório. Os factos conducentes a tais conclusões são no nosso entender falíveis, tal como falível é toda a tentativa de definir com rigor o Jesus histórico. No entanto, tudo aponta para que tenha sobrevivido à crucificação. A morte aparente ou estado cataléptico era um fenómeno bastante usual na antiguidade e até há bem pouco tempo – quem é que não recorda episódios de pessoas que foram sepultadas vivas?!
É essa a nossa intuição. Jesus sobreviveu à crucificação.

Em Marcos, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, quando se preparavam para o embalsamar, constataram que já não estava no sepulcro talhado na rocha, cedido por José de Arimateia, tendo um anjo anunciado a sua ressurreição e a sua vontade de encontrar os discípulos na Galileia (Mc 16,1-8). Terá aparecido primeiramente a Maria de Magdala, depois a dois dos discípulos, para aparecer finalmente aos onze, quando estavam à mesa, censurando-lhes a incredulidade (Mc 16,9-14). Segundo Mateus, aparece a Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, e a Maria de Magdala, no primeiro dia da semana, após estas terem verificado que o túmulo se encontrava vazio, ordenando-lhes que dissessem aos seus discípulos que partissem para a Galileia onde pretendia encontrar-se com eles (Mt 28,1-10). Lucas, refere que as mulheres encontraram a pedra do túmulo removida e entrando não encontraram o corpo de Jesus. Estando perplexas com a ocorrência, apareceram-lhe dois homens em trajes resplandecentes, que lhes deram conta da ressurreição. O próprio Pedro, por elas informado, deslocou-se ao sepulcro, onde apenas viu as ligaduras e o sudário (Lc 24,1-12). No caminho de Emaús, apareceu a dois discípulos, que inicialmente o não reconheceram (Lc 24,13-16) e posteriormente aos onze (Lc 24,36). Encontramos idêntica narração no Evangelho de João.

As aparições de Jesus, considerado morto, devem ter fortalecido a fé dos discípulos, homens simples e crentes num novo Deus, misericordioso e compassivo (Act 2,1-13), levando-os à evangelização, não obstante a feroz oposição judaica. A Nova Aliança – toda a Bíblia é a história de alianças estabelecidas entre Deus e os homens –, teve como arrebatado opositor, Saulo ou Paulo, que para além de aprovar a morte do primeiro mártir, Estevão (Act 7,54-60), devastava a Igreja nascente, indo de casa em casa, arrastando homens e mulheres, entregando-os à prisão (Act 8,1-3).
Foi este Saulo, que quando se dirigia para Damasco, perseguindo homens e mulheres desta “Via”, encontrou Jesus, que lhe terá perguntado: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» (Act 9,1-5). Convertido, começou imediatamente a proclamar que Jesus era o Filho de Deus (Act 9,20) – veja-se ainda Act 22,5-16 e 26,10-18 –, considerando-se Apóstolo por vocação, escolhido para anunciar o Evangelho (Rom 1,1).

É indubitável que os mais antigos documentos conhecidos do cristianismo foram escritos por Paulo – as Cartas –, homem psicologicamente complexo e possuidor de vasta cultura, ao contrário dos discípulos, simples e iletrados (Act 4,13). Provavelmente, na sua ambição de liderar uma religião nascente, que não privilegiava judeus, estendendo-se aos gentios, a todos os homens e mulheres de boa vontade, e que não obstante o fraco nível dos seus pregadores crescia com uma celeridade inesperada, previu a sua projecção no futuro e a possibilidade de atingir a celebridade. A este facto, poderá acrescer um sentimento de culpa pelas perseguições realizadas. Se bem atentarmos, nas Cartas, Paulo não refere a doutrina real de Jesus, as suas parábolas, mas privilegia a sua própria doutrina. Foi quer queiramos quer não, o organizador do cristianismo, que assim, antes, havia de se denominar paulinismo, por expressar a sua filosofia e teologia – entre outros, associou a morte de Jesus, Filho de Deus à redenção dos nossos pecados, deu corpo aos dogmas da trindade e do pecado original.


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